Longa-metragem, 35mm, 85 minutos, ficção, MG, 2008

Fronteira narra uma história de amor, fé e mistério em um velho sobrado onde vive a jovem Maria, cuja fama de santidade ultrapassa as montanhas do interior de Minas Gerais. A chegada de dois novos personagens terá efeitos perturbadores sobre Maria: um viajante, com quem “Maria Santa” viverá uma intensa paixão, e Tia Emiliana, velha senhora empenhada em preparar o grande milagre.
O FILME
“Muitas lendas cercam a relação entre o cinema e Cornélio Penna. A adaptação de “A Menina Morta”, seu livro mais célebre, escrito em 1954, teria sido acalentada por vários diretores, entre eles Glauber Rocha. Talvez motivado por essas histórias, li “A Menina Morta” e depois os três livros que compõem a bibliografia completa do autor. E assim cheguei à FRONTEIRA, seu livro de estréia, escrito em 1936.
Foi muito interessante conhecer Cornélio Penna do fim para o início. Talvez pela formação em artes plásticas, seu texto é extremamente pictórico, minuciosamente descritivo e detalhista. Paralelamente, esta notável capacidade descritiva está associada a uma excepcional criação de atmosferas, sempre a serviço de uma dramaturgia densa, com fatos e personagens impregnados de mistérios e subjetividade.
Ao ler FRONTEIRA encontrei um universo muito semelhante ao de “A Menina Morta” que tanto me fascinara. Embora nascido no Rio de Janeiro, Cornélio Penna passou a infância em Itabira, Minas Gerais. E uma das imagens mais marcantes de sua vida foi assistir ao enterro de uma “Menina Santa” assim que chegou à pequena cidade mineira. De fato, sua dramaturgia está muito marcada por imagens que
cercam as fazendas do interior mineiro e suas lendas ligadas à presença de escravos, fantasmas, mistérios insolúveis. Fui criado em uma dessas fazendas e conheci aquele universo denso e obscuro e também poético e instigante.
FRONTEIRA, romance fortemente introspectivo, apresenta a característica de ter dois narradores: o primeiro é a pessoa que encontra um diário e decide contar a história revelada por essas páginas; o segundo é o autor do diário. A meu ver, os personagens cultuam um catolicismo arraigado mas, ao mesmo tempo, não acreditam em Deus. Todos são uma representação da deterioração do patriarcalismo, de uma sociedade escravocrata e extrativista, fruto de decadência social e econômica da região. Estão ali abandonados num casarão que bem poderia ser uma “nau dos loucos”.
Fiquei fascinado pelos elementos dramáticos de uma trama tão rarefeita e me senti muito estimulado a mergulhar no hermetismo introspectivo da obra de Cornélio Penna, Tudo nele é muito tênue e intenso em uma trama que não se resolve plenamente e que transita entre as fronteiras de normalidade e loucura, paixão e razão, sonho e realidade. Ao longo de um ano trabalhei várias versões do roteiro e enfrentei o desafio de transformar um texto tão forte em uma narrativa cinematográfica.
FRONTEIRA é dúbio em vários aspectos – uma das marcas de Cornélio Penna é não esclarecer mistérios e segredos - e muitas questões ficam sem resposta. O livro não esclarece quem é o viajante ou as verdadeiras relações entre a Menina e Emiliana – que pode nem ser sua tia. A figura do juiz ou o que representam os papéis que leva à casa tampouco é explicada. O livro também não esclarece eventuais crimes cometidos no casarão. “Você quer ver a verdade?” “A verdade está atrás daquela porta”, afirma um personagem. As filmagens principais foram realizadas em um casarão com mais de 40 cômodos, sede da Fazenda Água Limpa localizada em Conselheiro Lafaiete, cidade que vive envolvida em névoa, o que criava naturalmente um clima de suspensão muito adequado à trama.
Tanto o livro como o filme podem oferecer uma dupla leitura: conduzir o leitor/espectador através de uma atmosfera onírica, irreal, ou despertar a pergunta: será que os personagens estão vivos?
O maior desafio da adaptação foi transformar o radicalismo do discurso subjetivo de Cornélio Penna em uma leitura pessoal traduzida em cinema. Procurei manter a estrutura da história e do seu entorno e experimentar a questão da temporalidade na tela. Embora faça referência à época da transição da monarquia para a república, o filme não é muito datado. Tentei resguardar a dramaticidade e a obscuridade das relações e lidar com fatos sem causa e efeito definidos. Tive o cuidado de trabalhar planos como pintura na busca de enquadramentos mais pictóricos e elaborados, como o texto sugeria. Os trabalhos de produção, elenco, arte, fotografia e montagem foram primorosos nesse sentido.
Mergulhar no universo denso e estranho de Cornélio Penna foi um desafio enfrentado com muito rigor e também com muito prazer para contar uma história de amor, fé e mistério que envolve valores universais”. (RAFAEL CONDE)
Adaptado da obra de Cornélio Penna